“Você sofreu um trauma na cabeça
muito grande Vronsky, o que acarretou o desenvolvimento de uma perda gradual da
sua memória. Aos poucos e gradativamente, todas as suas lembranças irão se
esvair.”
“Mas não há o que fazer, Doutor?
Como eu vou viver daqui pra frente?”
“Não há como reparar, é
irreversível. Do rosto das pessoas ao afeto que você sinta por elas, nada disso
vai permanecer na sua mente, e a suas relações sociais irão mudar
substancialmente.”
Sem um milagre a ser oferecido pela
medicina moderna, Vronsky vai embora da clinica. No metrô, e a caminho da
faculdade, Vronsky enfia a mão no bolso e tira um molho de chaves preso a um
chaveiro de tubarão. Ele fita o olhar no objeto e começa a chorar. Logo um
sentimento de alívio veio, pois percebeu que aquele chaveiro ainda trazia as lembranças
de Karenina que tanto lhe deixavam triste.
Na faculdade, Vronsky se sentiu
perdido pelo prédio. Eram corredores sem fim, com dezenas de rostos que não
reconhecia, alguns até o olhavam como se o conhecesse. Não sabia pra onde ir e
ficou parado, olhando as pessoas se enfiarem nas salas até o corredor ficar
deserto. Naquela noite ele não assistiu aula.
Vronsky decidiu ir para casa, pois
tinha certeza que se lembrava do caminho. Na entrada da faculdade encontra-se
com Karenina e várias lembranças vêm a tona: as tardes que passavam juntos
estudando, as noites de agradáveis e intermináveis conversas ao som de
Schoenberg, as idas ao Teatro Municipal, a sua personalidade carinhosa, a sua
beleza, a sua voz suave, o seu olhar que amalgamava doçura e volúpia, e muitas
outras memórias que na atual condição dos dois se tornaram espinhosas.
Karienina fez o que era de praxe
quando não se fala com alguém: continuou andando. Vrosnky podia ter a deixado ir,
mas tomou coragem para chamá-la.
“Karenina! Espera um pouco”
“Eu tenho pressa. Estou atrasada
para aula, depois você fala comigo”
“Talvez depois não dê, preciso
falar contigo agora.”
Karenina para e vira-se para
Vronsky, mas não olha para ele.
“Eu sofri um acidente e adquiri uma
seqüela. Minha memória esta se deteriorando, logo mais vou me esquecer de você
e de tudo no meu passado.”
“Eu não sei o que dizer. Talvez
seja melhor assim.”
“Melhor assim?”
“Eu não posso e nunca pude dar o
carinho que você esperava de mim. Posso ter dito coisas apaixonadas no passado,
mas elas ficaram lá, não tem significado algum hoje.”
“Mas faz apenas dois meses que eu
ouvi de você, que gostava de mim, que queria me ver mais, que só pensava em
como não iria me ver caso fosse estudar em outro país. Dois meses, o que você
guardou consigo por dois anos! Como tudo isso perdeu o significado de uma hora
para outra?”
“As coisas se deterioram, assim
como a sua memória. Deixe que essas memórias que te atormentam tanto se
desvaneçam e a sua dor vai embora. Olhe a vantagem que você tem sobre qualquer
outro indivíduo, de poder se livrar dessa melancolia e ainda se prevenir de
futuras. Essa dor que você tem por eu não ter te dado amor só pode ser superada
com o esquecimento. Aproveite”
“Eu não entendo porque ainda te quero na minha
vida, apesar desse desafeto.”
“Eu não sei. Mantive-me semanas
distante de ti, e mesmo assim, todos os dias, sem exceção, você pensou em mim e
sentiu minha falta. É a prova que a distancia física não é eficaz em destruir
esse amor que eu tanto odeio que você tenha por mim, sem que minhas lembranças que
existem no seu interior sejam exterminadas.”
“Meu Deus! Eu sou uma aberração
cognitiva e você só vê vantagens nisso! Não esperava que soasse tão
reconfortante o fato de eu nunca mais te ver e reconhecer.”
“Não devia ter falado aquelas
coisas apaixonadas. Você é um estorvo para mim, não quero que me ame. Esta
doença é uma grande benção pra mim e pra você. Aliás, quantas pessoas não
dariam a vida para se livrarem das memórias de seus desafetos?”
Na manha seguinte, Vronsky acorda
ao som de um despertador, mas não sabe para que estava acordando. Saiu à
procura de um bilhete ou coisa do gênero, mas, aparentemente, não se precaveu
para este novo retrocesso na memória. Foi à cozinha ver se achava algum post-it
colado na geladeira: sem sucesso. Sem mais saber o que fazer, começa a procurar
no lixo alguma anotação, mas acha um belo chaveiro de tubarão. Vronsky fita o
olhar no objeto e pensa “Que estranho este chaveiro aqui, de quem será que é?
Vou pegá-lo para mim”, e vive feliz com seu novo chaveiro.