sábado, 18 de abril de 2015

“Você sofreu um trauma na cabeça muito grande Vronsky, o que acarretou o desenvolvimento de uma perda gradual da sua memória. Aos poucos e gradativamente, todas as suas lembranças irão se esvair.”
“Mas não há o que fazer, Doutor? Como eu vou viver daqui pra frente?”
“Não há como reparar, é irreversível. Do rosto das pessoas ao afeto que você sinta por elas, nada disso vai permanecer na sua mente, e a suas relações sociais irão mudar substancialmente.”
Sem um milagre a ser oferecido pela medicina moderna, Vronsky vai embora da clinica. No metrô, e a caminho da faculdade, Vronsky enfia a mão no bolso e tira um molho de chaves preso a um chaveiro de tubarão. Ele fita o olhar no objeto e começa a chorar. Logo um sentimento de alívio veio, pois percebeu que aquele chaveiro ainda trazia as lembranças de Karenina que tanto lhe deixavam triste.
Na faculdade, Vronsky se sentiu perdido pelo prédio. Eram corredores sem fim, com dezenas de rostos que não reconhecia, alguns até o olhavam como se o conhecesse. Não sabia pra onde ir e ficou parado, olhando as pessoas se enfiarem nas salas até o corredor ficar deserto. Naquela noite ele não assistiu aula.
Vronsky decidiu ir para casa, pois tinha certeza que se lembrava do caminho. Na entrada da faculdade encontra-se com Karenina e várias lembranças vêm a tona: as tardes que passavam juntos estudando, as noites de agradáveis e intermináveis conversas ao som de Schoenberg, as idas ao Teatro Municipal, a sua personalidade carinhosa, a sua beleza, a sua voz suave, o seu olhar que amalgamava doçura e volúpia, e muitas outras memórias que na atual condição dos dois se tornaram espinhosas.
Karienina fez o que era de praxe quando não se fala com alguém: continuou andando. Vrosnky podia ter a deixado ir, mas tomou coragem para chamá-la.
“Karenina! Espera um pouco”
“Eu tenho pressa. Estou atrasada para aula, depois você fala comigo”
“Talvez depois não dê, preciso falar contigo agora.”
Karenina para e vira-se para Vronsky, mas não olha para ele.
“Eu sofri um acidente e adquiri uma seqüela. Minha memória esta se deteriorando, logo mais vou me esquecer de você e de tudo no meu passado.”
“Eu não sei o que dizer. Talvez seja melhor assim.”
“Melhor assim?”
“Eu não posso e nunca pude dar o carinho que você esperava de mim. Posso ter dito coisas apaixonadas no passado, mas elas ficaram lá, não tem significado algum hoje.”
“Mas faz apenas dois meses que eu ouvi de você, que gostava de mim, que queria me ver mais, que só pensava em como não iria me ver caso fosse estudar em outro país. Dois meses, o que você guardou consigo por dois anos! Como tudo isso perdeu o significado de uma hora para outra?”
“As coisas se deterioram, assim como a sua memória. Deixe que essas memórias que te atormentam tanto se desvaneçam e a sua dor vai embora. Olhe a vantagem que você tem sobre qualquer outro indivíduo, de poder se livrar dessa melancolia e ainda se prevenir de futuras. Essa dor que você tem por eu não ter te dado amor só pode ser superada com o esquecimento. Aproveite”
 “Eu não entendo porque ainda te quero na minha vida, apesar desse desafeto.”
“Eu não sei. Mantive-me semanas distante de ti, e mesmo assim, todos os dias, sem exceção, você pensou em mim e sentiu minha falta. É a prova que a distancia física não é eficaz em destruir esse amor que eu tanto odeio que você tenha por mim, sem que minhas lembranças que existem no seu interior sejam exterminadas.”
“Meu Deus! Eu sou uma aberração cognitiva e você só vê vantagens nisso! Não esperava que soasse tão reconfortante o fato de eu nunca mais te ver e reconhecer.”
“Não devia ter falado aquelas coisas apaixonadas. Você é um estorvo para mim, não quero que me ame. Esta doença é uma grande benção pra mim e pra você. Aliás, quantas pessoas não dariam a vida para se livrarem das memórias de seus desafetos?”
Na manha seguinte, Vronsky acorda ao som de um despertador, mas não sabe para que estava acordando. Saiu à procura de um bilhete ou coisa do gênero, mas, aparentemente, não se precaveu para este novo retrocesso na memória. Foi à cozinha ver se achava algum post-it colado na geladeira: sem sucesso. Sem mais saber o que fazer, começa a procurar no lixo alguma anotação, mas acha um belo chaveiro de tubarão. Vronsky fita o olhar no objeto e pensa “Que estranho este chaveiro aqui, de quem será que é? Vou pegá-lo para mim”, e vive feliz com seu novo chaveiro.


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