domingo, 22 de março de 2015

O bar estava metade cheio, metade vazio. Para uma noite de quinta-feira, até que estava bem freqüentado. A clientela, mesmo podendo usufruir de um amplo espaço, preferiu se condensar toda a frente do palco de shows. Nesta noite quem se apresentava era uma cantora muito talentosa, mas pouco conhecida.

Assim que subira ao palco fora recebida com aplausos e, após se apresentar brevemente, começou a executar seu repertório. Durante a apresentação, sentiu-se orgulhosa por ter capacidade de manter as pessoas maravilhadas com a sua harmonia. Na verdade, o maior efeito disto era alimentar o seu ego: ver todos lhe prestigiando fazia ela se sentir muito importante, mais até do que poderia ser; sofria de um engrandecimento descomedido. Entretanto, lá pela quarta música, a cantora percebeu que o cenário de prestígio não era homogêneo, havia um contraste. Ela reparara que havia um homem no fundo do bar que, diferentemente dos demais freqüentadores, não prestigiava a apresentação. Ele se quer olhava para o palco e parecia bastante compenetrado em algo que não dava para identificar direito.

Antes de tudo, a indiferença do homem feriu fortemente o ego da artista. Puta que pariu, mas que porcaria esse cara faz que não olha para o palco e não prestigia o show? O sentimento de ego ferido foi se amalgamando com uma curiosidade atormentadora e uma impulsividade foi crescendo a tal ponto que, ao invés de cantar quinze musicas antes de um intervalo, catara dez.

Muito simpática, ao descer do palco, cumprimentara todos que vieram falar com ela com um largo sorriso na cara e autografou tudo o que lhe enfiaram na fuça. Com uma impaciência muito bem mascarada ela da um jeito de fugir do assédio, vai até o balcão de bebidas e pede um scotch. Ali ela fica por uns minutos, dando umas bicadinhas na bebida e reparando discretamente no homem que desprezou sua apresentação. Parece que esse cara está escrevendo alguma coisa. Sim, é isso. É o calso de ir até ele e perguntar o que é que está escrevendo. Após tomar um gole mais comprido do scotch, a cantora sai do balcão.

- Oi moço. – perguntou simpaticamente, já na tentativa de obter uma atenção exclusiva do homem – Boa noite!

O homem, que estava encurvado diante do caderno em que escrevia, ergueu a cabeça sem endireitar o tronco, fez um sinal ininteligível com as sobrancelhas, abaixou a cabeça novamente e continuou a escrever. Mas que caralha de homem que nem se quer reponde um “boa noite” verbalmente. Com as suas expectativas frustradas, a cantora procura ser incisiva:

- Então, o que é que você está escrevendo aí?

O homem, sem levantar a cabeça, responde:

- Um romance.

- Ah, que legal. Eu posso saber sobre o que é esse romance?

O homem fica mudo por uns instantes. Agora, ele já não está mais escrevendo. Lentamente, endireita a coluna, mas ainda olhando para o caderno.

- É sobre um homem, que amava incondicionalmente uma mulher.

Inconformada e irritada por ele nem sequer olhar para sua cara, ela tentar ser mais incisiva: puxa uma cadeira, senta bem na frente dele e abre um sorriso que lhe mostra até os molares.

- Mas olha só, uma história de amor. Me conta como ela é.

Sem tirar os olhos do caderno, ele responde:

- A história é como qualquer história de amor ou relacionamento que exista no universo, seja fictícia ou real.

- Como assim?

- É como qualquer história porque todos os relacionamentos são iguais. As pessoas não percebem isto, porque quando lhe contam a história de um relacionamento lhe contam cheio de particularidades e isto faz parecer que é algo singular; o que acontece é que tais particularidades não são representativas, não mesmo! Por exemplo, acidentes fatais são acidentes fatais, seja como for que aconteçam, estas histórias sempre acabam desgraçadamente, o resto é supérfluo.

Aquilo que o homem falava começou a deixá-la interessada em ouvi-lo mais, já não se importava se ele não se encantaria por ela. A possibilidade de descobrir uma verdade sobre algo que julgava conhecer tão bem (afinal de contas, tantas as músicas escritas por ela sobre amor) lhe deixava cada vez mais curiosa.

- O que eu fiz – continuou o homem - foi tirar todas estas particularidades e contar uma história de amor que fosse global. Assim, eu construí uma história universal, que é história de todos os relacionamentos que existiram, existem e vão existir.

O sorriso falso na boca da cantora se desfaz. O que o homem acabara de dizer a deixara intrigada.

- Mas então, o que é que você escreveu? Falta muito pra acabar?

O homem finalmente levanta a cabeça e olha para mulher.

- Eu já acabei. É bem curto, mal tem uma página. Eu leio pra você.

Ele segura o caderno com as duas mãos e suspira fundo.

- Existe um indivíduo que está a andar por um túnel escuro, não tem um ponto de luz, é só trevas. Ele está angustiado porque não agüenta mais andar no breu, se sente só e incompleto. Só saindo do túnel e vendo a luz do sol é que se sentiria satisfeito. Muito bem! Um belo dia, o angustiado indivíduo avista bem de longe o que parece ser aquilo que tanto desejara: a luz do sol indicando a saída do túnel. Obstinado, o indivíduo, mesmo sem enxergar um palmo a sua frente começa a correr em direção à luz. Aquilo é seu objeto de desejo! Por não ver nada, ele tropeça, se rala, se machuca feio. Muitas marcas vão surgindo, mas a esperança cresce. Pois bem, a luz vem. Mas... Espera! A luz vem! Então o indivíduo para e olha em direção a luz... E ela ainda vem! Nessa hora, o que era esperança vira desespero. O que avistara não era a luz no fim do túnel, mas o farol de um trem, que vem a toda, impiedoso. O indivíduo se esforçou completamente pra chegar ao seu objeto de desejo acreditando que o que ele queria aconteceria; mas não aconteceu. Enfim, o trem, o qual o indivíduo correu em direção com tanta obstinação, passou por cima dele, estripando-o. Assim, eu contei a história do homem que amava incondicionalmente uma mulher. Contar a história de quem ama é contar a história de se viver entre a esperança (como princípio) e o desespero (como desfecho).





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